Tenho estado numa situação um bocado estranha em relação à linguagem. Enquanto trabalhava na construção deste site e na minha presença online em geral, deparei-me com um problema que tenho, vergonhosamente, ignorado até agora: tenho demasiadas línguas.
Não são assim tantas na verdade, principalmente tendo em conta quantas pessoas em Portugal falam facilmente mais de uma, duas, ou três, mas como alguém que cresceu nos anos 90 em Portugal, super croma e esquisita, e que começou a brincar com o teclado do computador do pai quando tinha cerca de 2 anos, fui muito cedo exposta a jogos de vídeo, desenhos-animados, e à internet, muitas vezes sem acesso a traduções ou dobragens. Resultado: aos 11 anos, já falava bastante bem inglês.
Sou portuguesa, com pais e avós portugueses, e embora a língua, a cultura e os custumes continuem bastante vivos dentro de mim, sempre senti que tinha uma segunda nacionalidade: a da internet anglofona.
Já disse na brincadeira que fui criada pela internet, com o Tumblr como mãe e os MMORPGs como pai. Não era só a quantidade enorme de tempo que passava nestas plataformas, mas o quanto elas influenciaram todas as facetas da minha vida, dos amigos que fiz, à cultura que consumia, e mesmo a forma como pensava. Para todas essas experiências marcantes, a língua era o inglês.
Lá estava eu então, uma miúda portuguesa, a falar em inglês com os amigos na rua, porque era mais fácil citar memes assim, a mais facilmente saber o que se passava no mundo da política americana do que da portuguesa.
Tudo isso criou uma certa desconexão, em que sentia que para estar online, tinha de estar em inglês. No final de contas, era a língua usada por todos os artistas que eu admirava.
Enquanto adolescente não me sentia nem portuguesa, nem europeia, nem americana: eu era Da Internet.
Não ajudava que a grande maioria do meu círculo social era igualmente nerdy, e que no geral, tudo o que era estrangeiro era visto como mais ‘fixe’. Afinal, as boas oportunidades estão lá fora, não cá dentro… certo?
Uma pequena parte de mim sentia-se mal por não usar a minha língua materna online. Mas era pequena.
Depois, mudei-me para a França, onde a cultura é bem diferente.
Ao contrário daquilo com que cresci em Portugal, em França, todas as séries, filmes e desenhos animados são dobrados (ou pelo menos a maioria é), o que faz com que a exposição da população em geral a línguas estrangeiras seja mais baixa, e encontrar fluência em inglês na minha geração é bem mais raro que em Portugal.
E não é só na televisão ou na rádio. A internet na França é francofona.
Não só há primazia da língua francesa, como também da cultura francesa. As pessoas aqui cantam em francês, escrevem em francês, fazem filmes em francês, criam arte em francês.
Em França as oportunidades não estão todas lá fora, muitas delas estão cá dentro. O sentimento que tinha em Portugal era que se não tivesse uma segunda língua, estava limitada. A sensação que tenho em França é que se não souber francês não vou a lado nenhum.
Onde é que isso me deixa então? Onde é que isso deixa o meu pobre português?
Uma vez fizeram-me a pergunta: Tu n’as pas le mal du pays ?
Em francês, “mal du pays” significa “saudades de casa”, mas quando traduzido directamente, palavra a palavra, soa a “não tens o mal do país?” Achei imensa piada.
Há muitas coisas “mal” com o meu país, como há com todos, mas o maior mal que tenho com as minhas origens neste momento é tentar descobrir em que língua existir.
Como a Chapell Roan canta em “California”:
In French, “mal du pays” translates to “homesick”, but when translated to English, literally, word by word, it sounds more like “the evil of the country”. To me, this was very funny.
There are many bad things about my country, the same way there are many bad things about every country, but the worst I’ve had of it is figuring out in which language to exist.
Chapell Roan has a beautiful line in “California”:
I stretched myself across four states
“Espalhei-me através de quatro estados”
Eu sinto que me espalhei através de três países, e um deles só existe em “.com”
Mesmo apesar das fronteiras de linguagem e país, existem pessoas em todas estas regiões e fases da minha vida que não quero deixar para trás. Então agora escrevo em três línguas em todo o lado, quer seja para redes sociais, neste blog ou na newsletter. É preciso um bocado de ginástica e tempo, mas não me importo. Há uma riqueza incrível em ter acesso a estas três línguas.